publicado a: 2017-03-22

O tratorista

Nos cursos de aplicação de produtos fitofarmacêuticos era tradição que uma das sessões práticas (onde se fazia a calibração do pulverizador, por exemplo) fosse feita na exploração de um dos formandos. Havia sempre um mais disponível, orgulhoso em mostrar melhor maquinaria ou um pomar novo e bem conduzido.

Lembro-me de um curso onde alguém se ofereceu usando o argumento que tinha comprado há poucos dias um trator e pulverizador topo de gama. Aceitei logo, e na manhã de Sábado combinada lá estava eu, levando o papel hidrossensível, o cronómetro, a fita métrica, o entusiasmo. As condições eram ótimas: máquinas novas em folha e um pomar novo e bem conduzido. Quando o primeiro ensaio em branco acabou eu perguntei ao tratorista a que velocidade ia. Não respondeu. Insisti, até porque o trator tinha um velocímetro digital perfeito e controlo de débito em função da velocidade. Não respondeu outra vez. Alguém com pena do meu ar desiludido, tocou-me no ombro e disse: "Não insista, o homem é analfabeto e não sabe ler o painel de instrumentos...".

Naquele dia aprendi o óbvio. Todos as tecnologias são inúteis se não houver quem as saiba utilizar. Esquecer que na aplicação de produtos fitofarmacêuticos o elemento mais importante é o aplicador (parece evidente, não é?) leva-nos a situações de ineficiência e insegurança.

Quando as leis da aplicação começaram a exigir que os agricultores fizessem formação e muita gente questionou a utilidade e qualidade dos cursos, respondi que, em muitos casos, qualquer progresso que se fizesse seria melhor do que a situação atual. Conseguir chamar as pessoas à sala e fazê-las ouvir alguma coisa de diferente não é só uma teoria inútil. É também uma oportunidade de questionar a forma como "sempre" se fez e sem saber bem porquê. Mas é também importante não esquecer que a forma como se “sulfata” é uma questão de orgulho e identidade do trabalho que se faz. É mais fácil mudar de fungicida do que de hábitos.

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