publicado a: 2018-12-05

2050: Como produzir mais alimentos sem acabar com as florestas?

Vamos precisar de produzir muito mais comida para alimentar o mundo em 2050 – mais 56% do que a que produzimos hoje e, no caso específico de produtos de origem animal, perto de 70%. Como poderemos fazê-lo sem comprometer de forma irremediável os recursos do planeta e sem agravar dramaticamente o aquecimento global?

O relatório Creating a Sustainable Food Future (Criando um Futuro Alimentar Sustentável), do World Resources Institute (WRI, organização sem fins lucrativos criada com o financiamento da MacArthur Foundation), divulgado nesta quarta-feira, aponta várias soluções para tentar encontrar esse equilíbrio entre a necessidade de alimentar 9,8 mil milhões de pessoas em 2050 e a urgência de manter o planeta viável.

Mas, primeiro, desfaz o mito de que já se produzem alimentos suficientes – uma ideia “que não é realista” e que pressupõe que “o mundo não só consuma menos produtos de origem animal […] mas que até 2050 elimine praticamente todo o consumo de carne; que as pessoas mudem a dieta substituindo a carne por legumes e cereais de alto rendimento actualmente usados para alimentar os animais; que todo o desperdício de alimentos seja eliminado; e que a comida seja distribuída unicamente em função das necessidades nutricionais de cada pessoa”.

Duas Índias

O relatório parte de números de 2010 para fazer a estimativa do que poderá ser o cenário em 2050. Uma das primeiras conclusões é a de que, mesmo que não haja uma aceleração do crescimento das áreas destinadas à agricultura e pastagem, em 2050 precisaremos de mais 593 milhões de hectares para dar resposta à procura de alimentos – ou seja, será necessário libertar uma área que representa quase duas vezes o tamanho da Índia. Note-se que entre 1962 e 2010 desapareceram precisamente 500 milhões de hectares de florestas e savanas para dar lugar a terras agrícolas.

Isto acontece ao mesmo tempo que é necessário reduzir drasticamente a contribuição da agricultura (e em particular da criação de gado) para a emissão de gases de efeito de estufa. Parecem objectivos incompatíveis, mas os autores do relatório mantêm algum optimismo, embora avisem que atingir as metas a que se propõem “exige acção de muitos milhões de agricultores, empresários, consumidores e de todos os Governos”.

Fundamental, dizem, é aumentar a produtividade através de um uso mais eficiente dos recursos naturais. É preciso “produzir mais alimentos por hectare, por animal, por quilo de fertilizante e por litro de água”. E deixam um alerta: “Se os actuais níveis de eficiência na produção se mantiverem constantes até 2050, alimentar o planeta implicaria acabar praticamente com as florestas que ainda existem, fazendo desaparecer milhares de espécies e libertando gases com efeito de estufa que iriam exceder os limites de níveis de aquecimento de 1,5 graus a 2 graus estabelecidos no Acordo de Paris – mesmo que as emissões de todas as outras actividades humanas fossem totalmente eliminadas.”

Aumentar a eficácia

Como é que se consegue, então, uma produção mais eficiente? Entre 1960 e 2010, esse objectivo atingiu-se através da duplicação de áreas irrigadas e da utilização de sementes adaptadas (incluindo as geneticamente modificadas) e de fertilizantes – mas actualmente, só é possível um “aumento limitado destas tecnologias”, avisa o relatório. Que alternativas existem?

Há margem para melhorar a relação entre a produção de um quilo de carne, a emissão de CO2 e a disponibilidade de terra (2/3 do total de área agrícola é para pastagem), dadas as diferenças em produtividade que existem entre as várias regiões do mundo. Para isso, é necessário que os Governos dos países em vias de desenvolvimento estabeleçam metas de produtividade e “as apoiem com maior ajuda financeira e assistência técnica” e que sejam postos em prática sistemas para controlar essa produtividade.

A melhoria das sementes pode ser conseguida com a tecnologia de edição do genoma (CRISPR-Cas9), desenvolvida em 2013 e que tem ainda um grande potencial a explorar, considera o relatório, que defende a necessidade de se aumentar os fundos dedicados à investigação na agricultura, tanto por organismos públicos como por privados.

Igualmente importante é apostar nas técnicas de revitalização dos solos degradados e também estabelecer uma ligação entre os ganhos de produtividade e a protecção dos ecossistemas (algo que pode ser feito através de medidas públicas e o relatório refere algumas já praticadas no Brasil). Outra área na qual as novas tecnologias podem ter um papel importante é a da redução da fermentação entérica, ou seja, dos gases dos bovinos, que são uma das maiores causas do efeito de estufa.

Alimentar perto de dez mil milhões de pessoas vai também exigir um aumento substancial da produção de peixe em aquacultura. O WRI prevê que o consumo de peixe aumente 58% entre 2010 e 2050 e é impossível que o peixe selvagem dê resposta a esta procura, até porque, de acordo com a FAO (Food and Agriculture Organization) 33% dos stocks marinhos estavam sobreexplorados já em 2015.

O crescimento da aquacultura, que tem emissões de CO2 semelhantes à produção de suínos ou aves (muito inferior à dos ruminantes), implica, por outro lado, o desenvolvimento de alimento para substituir o óleo de peixes selvagens, “um recurso que está já perto ou acima dos limites ecológicos”.

Comer menos carne

Mas não basta aumentar a eficiência da produção agrícola. É necessário reduzir o consumo – e neste ponto é crucial pensar-se na carne. O gado bovino, ovino e caprino usa dois terços da área agrícola global e contribui para cerca de metade das emissões de gases de estufa ligados à produção agrícola. O problema é que o mundo parece pouco inclinado para comer menos carne: a previsão aponta para um aumento da procura de 88% entre 2010 e 2050.

Os autores do relatório, lembrando que “até nos Estados Unidos esta carne (sobretudo de vaca) fornece apenas 3% das calorias”, estabelecem uma meta ambiciosa: que, até 2050, os 20% da população mundial com elevado consumo de carne o reduza em 40% relativamente ao que consumia em 2010.

Por fim, a redução do desperdício. Os autores do relatório reconhecem que “existem poucos precedentes na obtenção de reduções numa escala desta dimensão, até porque quando as economias se desenvolvem, o desperdício na parte de consumo da cadeia alimentar tende a crescer, mesmo que diminua do lado da produção”.

No entanto, acreditam que, no cenário a que chamam “esforço coordenado” (conjunto de medidas que estão convencidos que, com vontade política, o mundo poderia adoptar com custos económicos limitados ou até positivos) seria possível ter uma redução do desperdício de 10%. Já no cenário “altamente ambicioso”, essa redução poderia chegar aos 25% e no cenário “tecnologias revolucionárias” (que implicaria avanços científicos consideráveis) poderia mesmo atingir os 50%.

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