publicado a: 2017-05-10

Águas de Portugal

A primeira vez que ouvi falar da interação entre a água da calda e o produto fitofarmacêutico foi a propósito de problemas de eficácia de um acaricida em macieira. Este tipo de produto era conhecido como problemático, correndo constantes rumores de resistência. Chegou-se então à conclusão que poderiam surgir problemas com águas alcalinas (muito comuns por aqui no Oeste), e começou a recomendar-se a acidificação com produtos mais ou menos elaborados.

Alguma pesquisa mais tarde descobriu-se que todas as substâncias ativas sofriam hidrólise alcalina em contacto com a água. Umas mais rápidas, outras mais lentas. E que esta velocidade era mesmo aumentada pelos pH's elevados e temperaturas altas. O assunto tornou-se mais transparente e os fabricantes começaram a divulgar os intervalo "óptimos" de pH para cada produto.

Foi com alguma naturalidade que incluí este assunto na minha bagagem de formação. Abordava no âmbito dos cuidados a ter com a preparação da calda, lembrando que além de ser o momento mais perigoso para o aplicador, tinha assim também implicações na eficácia da aplicação. Em sessões de formação por todo o país, aprendi, por exemplo, que a geologia do local influencia a água extraída de furos usada na preparação da calda. Os problemas que tínhamos em zonas calcárias não eram sequer relevantes em zonas graníticas, onde encontrei um produtor que usava a mesma fonte de uma conhecida água mineral com um pH escolhido a dedo.

Um dia, algures na lezíria do Tejo, numa formação com produtores de arroz dei especial atenção ao assunto. A maior parte das suas aplicações incluía herbicidas específicos para a cultura, com um elevado custo por hectare. E eu fiz questão de salientar que uma água de qualidade e ligeiramente ácida seria fundamental. Alguém pergunta: “o que quer dizer com de qualidade?” “Límpida”, respondi. “Temos que considerar que além da alcalinidade, a presença de impurezas em suspensão também contribui para acelerar a hidrólise do produto.” “ Já percebi… Mas olhe que nós por ali usamos água bombeada das valas do Tejo. Além de ser turva, às vezes o pulverizador entope com os peixes e as rãs."

Hugo Pires

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