publicado a: 2022-01-12

É cada vez mais urgente comunicarmos a Agricultura e Floresta

Uma vez, a propósito dos incêndios de 2017, tive uma discussão sobre fogos e floresta com um rapaz das áreas criativas, que disse, com certeza dogmática, uma série de disparates sobre fogos, eucaliptos e floresta autóctone. Eu lá fui tentando explicar que não era bem assim e tal, mas sem sucesso. Até que a dada altura, já sem paciência, resolvi fazer uma coisa que nunca faço: puxar das credenciais. E disse-lhe:
- Mas olha que eu estudei engenharia florestal…
E ele olhou-me de cima e respondeu:
- Mas eu leio imensas coisas na Internet. Estou informado.
E eu achei que era melhor calar-me e deixar a discussão por ali. Contra os factos da Internet não há argumentos lógicos.

Efectivamente, nunca na história da humanidade tivemos acesso a tanta informação. E felizmente que assim é. A democratização do conhecimento e do ensino serão sempre o melhor caminho para uma sociedade menos desigual. Mas, como tudo tem o seu lado perverso, também esta imensa informação disponível o tem. É o exemplo das “fake news”, da desinformação e mitologia avulsa, que se espalham a uma velocidade alucinante.

A agricultura e as florestas têm sofrido com esta “era da desinformação”, mas muito por sua própria culpa. Pela forma como comunicam com o público.

A agricultura comunica, para dentro do sector, com termos e conceitos que só o sector conhece (nem toda a gente sabe o que é um lixiviado, um volume de calda, uma análise de resíduos ou um copado), muitas das vezes em eventos aos quais só vão pessoas do sector. E quando tenta comunicar para o público acontece uma de duas coisas (ou ambas), francamente inúteis:

  • Ou só o faz reactivamente, depois de uma qualquer polémica, e aí, de um modo geral vai sempre tarde, porque a ideia errada já se disseminou. Para além disso a comunicação reactiva acaba por gerar ainda mais desconfiança, pois “se só falam agora é porque nos andam a esconder alguma coisa.”
  • Ou, quando resolve fazê-lo com antecipação, confunde sistematicamente comunicação com publicidade e marketing e tenta “vender” um ideal agrícola, moribundo em qualquer imaginário com menos de setenta anos. Contratam-se então agências de publicidade e produzem-se peças cheias de estereótipos, bons para constarem da colecção do Museu Nacional de Etnologia, como o do agricultor velhinho com sotaque das Beiras, ou do agrónomo de boina e patilhas. Ou o da mão lânguida, a arrastar-se por cima das espigas, estilo “Gladiador”. Fora os textos cheios daquilo a que eu chamo a santíssima trindade dos clichés da agricultura: “as gentes”, “os saberes “ e “a tradição”.

Mas a culpa não é das agências de publicidade, que não são obrigadas a perceber de agricultura e floresta. As agências fazem aquilo que conseguem com o que as empresas e instituições da área agrícola e florestal lhes entregam e que, de um modo geral, é mau.

A culpa é do sector, que se demite daquilo que é uma obrigação sua: comunicar de uma forma clara, acessível a todos, o que de bom se faz na agricultura em Portugal, seja ao nível tecnológico, seja ao nível da sustentabilidade ambiental.

As pessoas não precisam que lhes construam imaginários idílicos sobre o rural. As pessoas precisam de ser informadas, de compreender. Precisam de perceber o que é. Como funciona. Por que razão essa informação é importante, como pode ser crucial nas escolhas de todos os dias, como por exemplo, na comida que compram para os filhos. E se o sector agrícola não lhes dá as respostas que procuram, elas irão procurá-las noutro sítio. Que nem sempre é o melhor.

A agricultura e as florestas têm de ser comunicadas numa linguagem clara, acessível, que toda a gente perceba. Há todo um trabalho de simplificação de conteúdos técnicos para o público em geral que devia ser feito. Mas, por alguma razão que me ultrapassa, o sector não o faz. Se nós, técnicos de agricultura e floresta, não conseguimos explicar às pessoas as vantagens daquilo que fazemos, quem o fará por nós?

Por tudo isto é fundamental que o sector estabeleça a comunicação de “agricultura clara” como prioridade estratégica. E que perceba também que a comunicação é um processo que, para ser sustentável e robusto, precisa de tempo, de planeamento, de objectivos claros. Não se resolve com propaganda. Afinal, a agricultura, antes de ser política, é conhecimento. É tecnologia. É ciência. Está presente na vida de todos os cidadãos.

A agricultura e as florestas estão a perder terreno para a “desinformação”, a cada dia que passa. Mas continuarmos a gritar argumentos em linguagem hermética e com a soberba característica dos detentores da razão, “nós é que somos os especialistas com estudos, nós é que sabemos, vós sois todos uns ignorantes que acreditam em mentiras” produzirá tantos resultados, como aquele português que, em Espanha e não sabendo falar espanhol, tenta ser percebido soletrando e gritando palavras em português. Assim como eu não convenci o tal rapaz que lia muito sobre fogos e floresta na internet, de coisa nenhuma, só por puxar da minha formação académica.

Sim, a agricultura e as florestas estão a perder terreno para a “desinformação” a cada dia que passa. Perdem terreno e perdem dinheiro. E se continuarem a insistir numa comunicação de reacção, baseada em clichés, continuarão a perdê-lo.

O problema, parece-me, é que infelizmente há pouca gente a dar por isso.

Cristina Soares
Consultora e formadora em comunicação de ciência

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