publicado a: 2019-04-09

A romã: novas formas de consumo e comercialização

Por Alcinda Neves | Universidade do Algarve – Faculdade de Ciências e Tecnologia

Alguns dados da produção e consumo de romã

A área de romãzeira plantada em Portugal e no Mundo nos últimos anos tem aumentado, devido ao grande interesse da romã como produto de alto valor nutricional e medicinal.

Índia, Irão, Egipto, China, EUA (Califórnia), Israel e Espanha, são países em que a cultura tem grande expressão e valor comercial.Em Portugal a produção é pequena, mas tem vindo a aumentar no Alentejo e Algarve, atingindo em 2017 o valor de 2659 t, cinco vezes a produção registada em 2013 (INE, 2019).

A Europa é um grande centro importador de romã, consumindo além da produção interna (Espanha, Grécia e Itália) mais cerca de 50 000 t importadas principalmente da Turquia, Perú e Israel (CBI, 2019).

O principal destino das romãs comercializadas na Europa é a Alemanha, seguida da Itália, França e Reino Unido. O grande centro de distribuição da romã na Europa é na Holanda.

Do ponto de vista nutricional, o fruto possui elevado teor em antioxidantes, nomeadamente antocianinas, pigmentos que dão a cor vermelha aos bagos.

Outros compostos fenólicos e flavonoides presentes no fruto, ácido punícico e vitamina C são também considerados compostos de grande interesse. Além disso, a beleza dos frutos e dos bagos, assim como o sabor suave e agradável destes, influenciam positivamente a decisão de compra dos frutos.

Do ponto de vista medicinal, numerosos estudos sugerem efeitos positivos da romã na saúde humana, alguns já na fase de ensaios pré-clínicos e clínicos(Elnawasany, 2018), mas o seu efeito na cura ou prevenção de doenças humanas ainda carece de confirmação científica. Não obstante, existe uma grande variedade de produtos dietéticos produzidos a partir de extratos do fruto, quer dos bagos, quer da casca, quer das sementes, que explora este nicho de mercado.

Felizmente, com algumas raras exceções de pessoas alérgicas à romã, as doses toleradas pelos seres vivos são altas para a maioria desses produtos e podem ser consumidos sem provocar reações adversas.

Fruto fresco, inteiro ou na forma de bagos embalados

Os frutos inteiros são a forma tradicional de comercialização das romãs. A época de produção nas zonas temperadas do hemisfério norte concentra-se num período curto de Setembro a Novembro, embora existam algumas variedades extra-temporãs e muito tardias que alargam um pouco esse período. Países como a África do Sul, Chile e Perú no hemisfério Sul abastecem o mercado entre Março a Julho.

A evolução das técnicas pós-colheita permite alargar o período de comercialização até cerca de 3 meses após a colheita, embora com alguma redução da qualidade dos frutos após o segundo mês (Serdar et al., 2017). À semelhança da maçã, as condições ideais de conservação são o armazenamento dos frutos à temperatura de 5 a 7 ºC e humidade relativa de 90 - 95%.

A utilização de técnicas de atmosfera modificada (MAP- Modified Atmosphere Packaging),em que as caixas de frutos são cobertas com filmes plásticos com diferente permeabilidade para o oxigénio e para o dióxido de carbono, permite minimizara redução de qualidade associada a uma conservação prolongada. Também a aplicação de ceras e outros revestimentos na superfície dos frutos, contribui para a manutenção do peso dos frutos e manutenção da textura e coloração da casca, principais aspetos relacionados com o armazenamento prolongado.

A romã é um fruto com a reputação de ser difícil de descascar, operação que, além de demorada, tem o inconveniente de manchar facilmente as mãos e os tecidos.

Assim, na primeira década do século foi feito um grande esforço em países como a Espanha e Israel, seguidos pelo Irão,Turquia e Índia, de desenvolver máquinas capazes de libertar mecanicamente os arilos dos frutos e proceder à sua comercialização em pequenas embalagens, distribuídas na rede de frio dos supermercados.

Este produto tem a preferência crescente dos consumidores europeus, seguindo a tendência atual do aumento do consumo de alimentos já preparados e prontos a comer.

As máquinas separadores dos arilos (bagos) da romã representam um importante avanço para a cultura da romãzeira. Estas máquinas são muito eficientes na separação dos bagos, das cascas do fruto e das membranas interiores que separam os bagos.Os produtores beneficiam de melhor valorização dos frutos, devido ao preço de venda superior dos frutos descascados e à redução significativa dos frutos não comercializáveis devido a pequenos defeitos.

Esta técnica, associada à conservação prolongada das romãs em câmaras frigoríficas, permite o abastecimento do mercado durante períodos até 6 meses por ano e permite contornar a diminuição dos preços no pico da produção, devido ao excesso de oferta. Além disso, a oferta do produto durante um maior período do ano pode contribuir para aumentar a quota de mercado deste fruto.

A produção de bagos prontos a comer deve respeitar altos padrões de higiene sendo os bagos após a extração tratados por métodos físicos ou químicos para garantir a sua conservação por períodos até21 dias (Maghoumi et al., 2013).

Após uma higienização dos bagos, geralmente em soluções contendo cloro, seguida de lavagem em água corrente, os bagos são secos e depois submetidos atratamentos térmicos ou de radiação ultravioleta para inativação de enzimas e microrganismos ou, em alternativa ou complementarmente, tratados com soluções diluídas de ácido ascórbico, ácido cítrico ou outros, sendo também vulgar a utilização de filmes edíveis com produtos naturais como a quitosana, soluções diluídas de mel ou gel de Aloe vera ou ainda óleos essenciais (Vino et al., 2014, Ozdemir et al., 2016).

A criação de uma atmosfera rica em oxigénio na embalagem melhora a qualidade do produto durante o período de prateleira, assim como o embalamento em vácuo.

Os arilos dos frutos representam cerca de 52% do peso do fruto e podem ser destinados, não só à preparação de bagos prontos a comer, como à produção de bagos ultracongelados e bagos desidratados, além da preparação de sumos frescos e concentrados, melaços, geleias e outros produtos alimentares e dietéticos (Dhinesh&Ramasamy, 2016). A congelação e a desidratação dos bagos são tecnologias fáceis de implementar e dão aos agricultores uma garantia extra de escoamento do produto, pelo que são apresentadas seguidamente.

Também as cascas e membranas internas dos frutos descartadas na extração dos bagos são matéria-prima para a indústria alimentar e cosmética, devido à sua riqueza em princípios ativos, assim como as sementes dos bagos, após a extração dos sumos.




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